
Em Tramandaí, funcionava o Cine Coimbra, bem no centrinho. Abria as portas apenas à de noite. Durante o dia, eu passava de bicicleta em frente e parava para observar os anúncios dos filmes em cartaz.
A Família Addams! A imagem daqueles personagens, à primeira vista, parecia assustador para uma criança de 8 anos acostumada com os filmes dos Trapalhões. O olhar ávido do careca só poderia ser algo do mal. E aquele Frankenstein lá atrás? Sem falar na mão com vida própria. A menina, todavia, era da minha idade e bonitinha.
Cerca de 5 anos mais tarde, sentei em frente à televisão para assistir pela primeira vez. Depois de conhecê-los, mudei de opinião e me encantei pela história. O Tio Fester é o mais legal. O Tropeço não mete medo em ninguém. A Mãozinha até que era bem divertida e a Wednesday continuava bonitinha, mas já não tinha mais a minha idade.
Dias atrás, me peguei vendo a versão seriado, gravada em 1964. É fácil encontrar nas madrugadas em meio a tantos canais da tevê a cabo. Onde estiver passando a família doida do casal Gomez e Mortícia eu paro para acompanhá-los.
Poucas vezes fui ameaçado de tomar uma surra dos meus pais. Seja porque dificilmente fazia traquinagens graves seja pelo fato de que, quando a lição era necessária, a cinta não vinha com aviso prévio.
Certo dia, nas areias da praia de Capão Novo, litoral norte gaúcho, pensei que tomaria uma bolacha na cara. Acompanhado do meu pai e de alguns dos seus colegas de trabalho, avistamos um conhecido comunicador e fomos em sua direção.
Não direi o nome verdadeiro de quem estou falando. Mas por algum motivo que nunca quis perguntar, todos o chamavam de Lola. Tantas vezes havia escutado que a Lola fez isso, a Lola fez aquilo. Pois lá vinha a Lola.
Na inocência de quem tinha apenas 5 anos e desejava ser simpático, não percebi que a Lola não sabia que era a Lola. Ou que sabia que era Lola e não gostaria que espalhassem que era a Lola. Melhor não entender. Na minha vez de cumprimentá-lo…
- Oi, Lola!!!!
A expressão dele mudou. Rezo até hoje para que ele não tivesse escutado bem. Notei que meu pai ficou vermelho como um pimentão. Logo percebi que não devia ter chamado a Lola de Lola, digo, chamar de Lola o referido cidadão.
Quando aquele homem, de alcunha Lola por parte dos companheiros, deu as costas, a mãozona do velho Cláudio subiu e quase me deu um tabefe.
- Por que tu chamou ele daquele jeito? De onde tu tirou isso, guri?
- Pai, escutei tantas vezes vocês chamando ele assim, pensei que era natural.
Escapei ileso. Portanto, aos leitores que já são ou serão papais, deixo o conselho. Não falem dos apelidos dos amigos na frente dos seus filhos. Evite saias justas.

Na semana passada, o Guri Medonho completou 1 ano no ar. Quero agradecer a todos que seguem o blog, deixam comentários e que embarcam comigo nessa viagem tão divertida de volta à infância.
Tenho motivos de sobra para comemorar. Nos 12 meses, foram mais de 180 mil visitas de todas as partes do Brasil e do mundo. Escritos até aqui 167 posts, lembranças que provocaram o total até agora de 1390 comentários de leitores.
O mais importante. O Guri Medonho trouxe meu grande amor, quem eu considero a mulher da minha vida. No começo, uma simples leitora; hoje, a pessoa com a qual faço planos e quero seguir ao lado firme e forte. Te amo, Nathi.
Obrigado a todos! E segue o blog…

Na aula de língua portuguesa, aprendemos sobre aliterações. É a figura de linguagem que consiste na repetição de sons idênticos. A professora mostrou-nos versos de “Violões que choram”, poema de Cruz e Sousa, para exemplificar.
Tratava-se de uma estrofe doida de 16 palavras que começam com a letra v. Não entendi bulhufas do que significava o poema, mas fiz questão de decorá-lo. Consegui. Sabia lê-lo rápido e sem errar. Dificílimo. Só faltava uma utilidade para isso.
Pois todos nós tivemos aquele colega chato que sempre surgia com vasto repertório de piadinhas e brincadeiras das mais impertinentes. A pior delas: remedar o que se fala.
- Quer um chiclé?
E vinha a imitação:
- Quer um chiclé?
Para não deixar dúvidas, falava-se outra frase para testar.
- Que frio!
- Que frio!
Sim, a brincadeira tinha começado.
- Para de me imitar!
- Para de me imitar!
Uma forma de tentar barrar o papagaio era dizer:
- Eu sou um idiota!
Mas neste dia, o sujeito estava afim de perturbar e não se deu por vencido. Respondeu.
- Eu sou um idiota!
Não aguentei. Respirei fundo. Tenho certeza de que ele pensou que escutaria os mais cabeludos palavrões naquele instante. Me preparei e, num fôlego só, lancei:
- Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos violões, vozes veladas, vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas…
E ele:
- Vozes.. vãn.. ventos… ãhn?
Ele nunca mais me incomodou. Te devo essa, Cruz e Sousa!

Lá em casa não faltava estoque de 7 Belo. Todos eram viciados na balinha de framboesa. Depois do almoço, não havia sobremesa melhor do que 7 Belo.
- Pai, eu quero 7 Belo!
- Então vai lá para a sala que vai cair do céu!
Adorava a brincadeira. Corria para o sofá, deitava e ficava esperando a chuva de doçura. Bastava tomar o cuidado para que a bala não aterrissasse em nenhuma parte sensível.
Lá da cozinha, o pai arremessava duas delas, que eram devoradas imediatamente. Em algumas vezes, surgia a terceira bala, a qual me pegava desprevinido.
Tempos atrás, perguntei-lhe sobre aqueles momentos tão divertidos. Quis saber de onde havia tirado aquela ideia simples e genial.
- De nenhum lugar. Apenas te despistava da cozinha para tu não descobrires onde que ficava escondido o pacote de balas e não comê-las fora de hora.
Oh, céus!

Jogar futebol, para quem vivia dentro da cidade grande, significava vidraças quebradas. No meu caso, eram os postes de luz da entrada no prédio onde moro até hoje. O síndico, certa vez, proibiu nossos campeonatos.
O jeito foi esperar o domingo, dia de pouco tráfego, e bater nossa bola no meio da rua mesmo. Eram os craques do paralelepípedo. Na regra, deveríamos interromper o jogo quando passassem os carros ou alguma frágil velhinha.
A mudança, por um lado, foi para melhor. Surgiu a sensação de liberdade. O campo tornou-se imenso. A rua toda, para ser mais exato. Mas queríamos muito mais emoção. Havíamos perdido o risco de destruir as luminárias.
Descobrimos a adrenalina de brincar de tiro de meta do Zetti. O ex-goleiro do São Paulo levantava a bola e dava uma bomba para cima. Muito alta. Então, ficava um de nós em cada ponta, pegava-se a gorduchinha, preparava-se e…
- Armelindo Donizetti Quagliato!!!!!
Para ter graça, tinha que gritar o nome completo dele no momento do chute. Eu tinha visto que ele se chamava assim no álbum de figurinhas do Campeonato Brasileiro de 1992.
- Armelindo Donizetti Quagliato!!!!!
Pá… lá subia outra bola isolada.
- Armelindo Donizetti Quagliato!!!!!
E voltava para mim com outro chutaço quase rente às estrelas. O problema foi que não prevíamos que antes delas estavam os fios de alta tensão.
- Armelindo Donizetti Quagli… ops!!!!
A redonda perdeu o rumo, foi para o meio dos postes, caiu sobre os cabos de energia e provocou um estouro. Baita susto, saímos correndo e deixamos a bola lá. Ninguém teve coragem de tocá-la com medo de tomar choque.
Assim, as estrelas do futebol de rua nunca mais brilharam no quarteirão. No entanto, até hoje, quando jogo bola e me preparo para dar um chute, lembro…
- Armelindo Donizetti Quagliato!!!!!